sexta-feira, 29 de março de 2013

do brilho necessário

O texto que se segue foi publicado no Jornal de Notícias em outubro de 1993. É provável que o leitor encontre nele um qualquer desassossego...

                                                                      A IDEIA
Naquela manhã, à hora a que as flores se abrem e os animais se animam, um homem chegou, anunciando que tinha uma ideia. Os outros homens pararam o início do dia e todos se puseram a escutar atentamente o homem da ideia.
A ideia, apresentada com especial saber, parecia uma ideia boa, ou mesmo uma ideia brilhante. E todos os homens a aceitaram, entusiasmados. Alguns até lamentaram o facto daquela ideia não ter aparecido há mais tempo. E, a partir desse dia, foi essa ideia que passou a nortear os homens, ou, dito de outro modo, os homens passaram a nortear a sua vida por essa ideia, que lhes parecia brilhante e necessária como o sol dessa manhã.
Mas os dias passaram, nem muitos nem poucos; passaram os dias exactos para que os homens começassem a dar-se mal com a ideia, a não saberem nortear a sua vida pela ideia, a não aceitarem a ideia para norte das suas vidas.
 
Os homens andavam sem saber o que fazer. Os dias nasciam e eles nem viam as flores, que continuavam a desejar o sol, a aceitá-lo, como antes eles aceitaram aquela ideia, que acharam brilhante.
 
E, cada dia que passava, os homens mais confusos e revoltados se mostravam. Até que todos pararam o início dos dias e se reuniram para discutir a ideia.
Juntaram-se, então. Mas em tão grande alvoroço que ninguém conseguia discutir fosse o que fosse. Apenas diziam que todo o mal estava na ideia, naquela ideia que um dia um homem lhes trouxe. E pediam a cabeça do homem, a morte da ideia; e gritavam palavras de fúria, palavras de guerra.
Mas um homem, de entre todos, conseguiu erguer a voz para serenar todas as outras.
E disse:
– O nosso mal não está na ideia que o homem nos trouxe. Não é dela a culpa de não sabermos o que fazer nem para onde ir. O mal está em nós, que aceitámos uma ideia que só agora pretendemos discutir.
– Então, tu o que propões? – questionou outra voz.
E o homem, que erguera a voz para serenar todas as outras, e que tinha os olhos da cor das manhãs claras, disse:
– Eu proponho que cada um apresente uma ideia. Que todos discutamos serenamente essas ideias, ou mesmo mais ideias, de maneira que cada um de nós possa ir construindo a sua ideia.
E assim se fez.
E quando a noite caiu, os homens ainda estavam reunidos a discutir as ideias. Muitos sonharam com elas. Algumas até lhes pareceram brilhantes para nortear as suas vidas, ou, melhor dizendo, as suas ideias.
Na manhã seguinte, ao início do dia, todos partiram. Mas quase todos ainda iam às voltas com as ideias, o que, em nosso modesto entender, era bom, muito bom que assim fosse.
   Fernando Hilário, Escrita de Mel e Água, Jornal de Notícias, sexta-feira, 22 de outubro de 1993       
  

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

1991-2013 ou 22 anos depois…

                                                                       O dia dos sustos

Num determinado tempo da minha meninice, julguei que o Carnaval fosse o dia dos sustos. Os mascarados existiam para nos assustar. Por isso é que iam no encalço das pessoas e, em piruetas desconformes e medonhas, lançavam-lhes o feio das suas figuras. Depois, explodiam em terríveis gargalhadas, felizes pelo efeito conseguido.
Tinham essas exibições qualquer coisa de tétrico, de macabro, de mortuário. E eu tinha-lhes muito medo.
Na raiz desta ideia estavam certamente as primeiras máscaras que eu vi e cuja impressão perpetuou algum tempo na retina. Eram feias carantonhas, máscaras de um grotesco sem graça, negras, brancas, vermelhas, resultado de uma plástica que conciliava o engenho local com os materiais possíveis. No fundo, eram criações na linha dos espantalhos. Mas espantalhos vivos, caveiras movíveis, talhadas na casca esbranquiçada de uma abóbora, duendes, ogres, bruxas, fadas más, piratas de olho de vidro e de perna de pau, mafarricos, fantasmas feitos de pano de lençol e outras demoníacas figuras pintadas a carvão e rouge.
Só mais tarde, a indústria trouxe as máscaras de papelão, de cartão, de plástico, com cores brilhantes e fixas, resistentes à água atrevida das seringas, e tão reais algumas que pareciam a sério.
Começava, assim, a mascarada em pronto a servir, a possibilidade de cada um escolher a máscara a seu gosto, sem apelo pessoal a grandes engenhos e artes.
Nesta altura, eu já era rapaz de escola primária. E para entrar na brincadeira, economizava nos pirolitos, nos chupa-chupas, na fava-rica e outras gulodices. Ia então à venda e comprava uns tostões de estalinhos, bombinhas, bichas-de-rabiar, serpentinas para os automóveis levarem e, sobretudo, uma bisnaga ou seringa. A melhor que tive foi uma tipo pistola James Bond. Infalível, de esguicho veloz, longo e certeiro.
Depois veio o tempo de olhar para a sombra. E o Carnaval, como qualquer outra festa profana, era sempre aguardado com ansiedade. Com ele vinham os bailes; vinham outros contactos e aberturas que ao tempo tinham tanto de proibido como de desejado. E as máscaras, o disfarce, davam jeito… Quanto mais não fosse, davam alento aos tímidos e mais “lata” aos que já a tinham.
Era, enfim, tempo de certos escapes e avanços, como ainda o é hoje, e o é ainda de alguma permissividade e de certos exageros.
E depois desse tempo, o Carnaval foi-se estreitando ao convívio dos amigos, com uns copos, um chouriço em álcool, caldo-verde e alguma música.
Mas este Carnaval de 1991 trouxe-me memórias bem longínquas. Memórias desse tempo da minha meninice. E pensei mascarar-me. Não para ir a um baile de máscaras ou tomar parte em um desfile de rua. Nada disso. Pensei mascarar-me para ir meter medo a certos homens…
Mas por pensar que não há nenhuma máscara capaz de lhes meter medo, desisti.
 
 
                                                                                                                      Fernando Hilário
(Crónica publicada na rubrica “Escrita de Mel e Água” do Jornal de Notícias,  a 14 de fevereiro de 1991.)

sábado, 22 de dezembro de 2012

DUAS CRÓNICAS NATALÍCIAS

EU ACREDITO NO PAI NATAL
 
 
Todas as casas que habitei na minha meninice tinham chaminés insuficientemente largas para que um homem com um saco cheio de coisas descesse por elas e deixasse, ali, no sapatinho posto no fogão, as prendas de Natal. Tanto mais que à minha retina sempre se vinculou uma figura de homem rechonchudo e atafulhado em roupa.
 
Mas nem por isso deixei de acreditar no Pai Natal. Pelo contrário. E sempre pensei que um homem do seu gabarito não se atrapalharia com coisas tão banais como são as leis da física: encolheria; ou operaria outro qualquer malabarismo, arte mágica ou milagre que lhe permitisse, a ele, homem de palavra, dar resposta às cartas de Natal.
 
E hoje, já longe esse tempo em que um ruído, que os pais confirmavam vir da cozinha, nos fazia estremecer o coração e correr ao encontro do desejo ou do sonho materializado numa prenda de sapatinho, hoje, também já passada a dúbia e incerta juventude, continuo e quero continuar a acreditar no Pai Natal.
 
De certo modo, o meu imaginário da infância a isso obriga -- repito: sempre tive o Pai Natal na conta de um homem de palavra. Também sempre o conheci com aquelas barbas fartas e brancas, a fatiota branca e vermelha e um ar todo pimpão. Chegou àquela idade e por ali ficou, rijo como um pêro, sem mais mossa do tempo. Faz, decerto, um regime alimentar muito especial. Provavelmente, à base de caldos quentes, de legumes fresquíssimos e despoluídos e de iogurtes com pedaços de fruta dos mais fertéis e viçosos pomares, e não deve abdicar de um apurado exercício físico, levado a cabo em espaços de eleição.
 
À volta disto deve andar o segredo da sua longevidade. Certo é que também nunca o via a fumar, nem cachimbo, modalidade que até nem lhe ficaria mal. Tão pouco levará uma vida de "stress" -- mas para isso basta não ter de andar por cá, nesta balbúrdia de barulhos, fumos, cotoveladas e confusões de políticos e de outros tipos complicados. A vida dele é outra: é dar prendas; e dar prendas dá muita felicidade.
 
Para além disto -- que não é pouco --, é ainda um homem letrado e douto, altamente viajado, poliglota e bem-humorado.
 
Mas, apesar de me ser tão querida a sua figura, há um reparo que lhe quero fazer, sim, a si, sr. Pai Natal. E o reparo vai para a falta de atenção que eu julgo ter com certas questões de interesse capital.
 
Ora veja! Sendo o senhor uma figura carismática do jet set mundial, tendo os dotes que tem, como é o caso de tanto entrar numa chaminé portuguesa como numa da Conchinchina, estando, obviamente, a par de tudo o que se passa neste planeta (e o que se tem passado é grave, tão grave que qualquer dia nem as suas renas terão pasto...), não lhe parece, sr. Pai Natal, que, tirando partido dos seus poderes e da sua influência, indiscutivelmente maiores que as de um Clinton, de um Cavaco Silva ou de um Delors, devia actuar de outra forma?
 
Pergunta-me, o senhor, do alto das suas barbas e a braços com a sua tradição como? E, de algum modo, também se indigna V. Ex.ª com a minha impertinência, achando que sempre cumpriu o seu papel de distribuidor anual de prendas, e que eu nem sonho a trabalheira que isso dá, sobretudo quando há por aí quem peça tantos brinquedos e outras coisas que não há saco que resista.
 
Bem. Vamos por partes. Primeiro, gostaria de dizer-lhe que Natal não é só em Dezembro... Não que deixe de ser em Dezembro, mas também pode ser em qualquer outro mês, dia ou hora do ano, de qualquer ano. Não sei se já sabia isto?...
 
Devia, então, haver mais prendas ao longo do ano, sobretudo para quem as mereça ou delas precise.
 
Mas está, o Pai Natal, a pensar: -- Que prendas?!
 
Olhe, dar, por exemplo, paz a um povo que esteja em guerra. Ou oferecer alívio a quem sofra. Presentear com pão quem tenha fome. Distribuir por aí fraternidade, quem bem precisa é. Dar casa a crianças sós...
 
Está a ver que belíssimos presentes o Pai Natal pode dar em qualquer altura? Tem é de estar atento. Tem de ser suficientemente sensível para que a sua sacola possa consolar os verdadeiramente necessitados.
 
Parece-me, pois, que o seu papel não se esgota na resposta às cartas que directamente lhe são dirigidas na época natalícia. Até porque, e creio que já percebeu, há uma real necessidade de ser sempre Natal. Não acha? E há quem, pura e simplesmente, não saiba ou já não se lembre que há Natal. Há até crianças que nem sonham com o Natal. Para esses, o seu humanismo é necessário, tão necessário como a luz do Sol, o ar ou a água.
 
Mas perguntará ainda o Pai Natal : -- Porque carga de água tudo isso terá de ser obra do meu saco?!
 
Olhe, justamente porque o seu saco não é como o dos outros: no seu cabe sempre mais uma prenda, sem impostos nem contrapartidas; no seu saco, porque é seu, cabem a paz, a dignidae e a alegria de um mundo inteiro.
 
O seu saco, querido Pai Natal,  pode ser desinteressadamente altruísta e criterioso, ao passo que o dos outros (nós sabemos que é assim) é egoísta e interesseiro.
 
Por outro lado, e muito bem feitas as contas, só nos resta acreditar em si. O senhor já provou que faz o impossível. Olhe que é obra descer em tantas chaminés e por algumas bem estreitas! E uns tantos outros, também com poderes, nem o possível fazem!
 
Fica, pois, aqui, o meu apelo ou a minha carta de Natal, como queira: diversifique em quatidade e qualidade o conteúdo do seu saco! Apareça mais vezes!
 
E, desde já, o meu muito obrigado.   
 
 
 
 
Fernando Hilário, Escrita de Mel e Água, Jornal de Notícias, Última Página, 18 de dezembro de 1992 (Manteve-se a ortografia original)
 
 
 
 
 
PRENDA DE NATAL
 
 
O Pai Natal deixara-lhe no sapatinho um rótico, nem mais nem menos.
 
Um rótico! Que maravilha!
 
Nunca tinha tido um rótico! Nunca sonhara vir a ter um! Nunca ninguém se lembrara de lhe oferecer um rótico! Agora, finalmente, tinha um rótico. Um rótico novinho em folha. Um rótico de qualidade. Um rótico de marca. Um rótico de etiqueta confirmada. E um rótico era coisa que não estava ao alcance de todos, pois que nem todos são especiais para receber, para ter um rótico. Só se oferece um rótico a pessoas de qualidade, a pessoas sensíveis, a pessoas de gosto refinado, a pessoas superiores... E ele tinha, finalmente, um rótico.
 
O reconhecimento da pessoa invulgar que ele era, viera pois nesse Natal. E se foi para ele uma surpresa, uma agradável surpresa, uma honra, uma distinção que jamais iria olvidar, era, diga-se, da mais não sei quê (elementar) justiça que ele fosse cotemplado com um rótico. De resto, tratava-se de um gesto, de um reconhecimento que já tardava, podendo-se até ver, em tal demora, uma pontinha de injustiça. Porém, nesse Natal, fez-se justiça: merecedor indúbio de um rótico, ele teve-o, e, assim, reparou-se o dano da delonga, ao mesmo tempo que a tremenda sabedoria popular ganhava, como é seu apanágio, vulto: Mais vale tarde do que nunca
 
Não foi sem expectativa, nem sem pontinha de nervosismo que ele desembrulhou a caixa azul com laçarote dourado onde se guardava a magnífica surpresa. Abre! Abre! Abre! -- gritavam-lhe entusiasticamente os seus beneméritos. E, ultrapassada a atrapalhação do papel e da laçarada, chegou finalmente ao cerne da coisa.
 
Olhou. Voltou a olhar. É um rótico! -- disse um dos beneméritos, que não resistiu por mais tempo à demora da revelação. É?! É. Pois claro que é. Sem dúvida: é um rótico! Um merecido rótico. Indiscutivelmente.
 
Contra os factos não há argumentos: aquela coisa era um rótico. Pegou nele com jeito indefinido. Pôs-se a vê-lo, rodando-o nas mãos, sob o olhar admirado. Tomou-lhe o toque pelo tacto. Levou-o ao nariz para saber do odor, do cheiro indescritível. Beijou-o, para um tacto mais profundo. Repetiu tudo. Com admiração indescritível, repetiu tudo, isto é: viu, voltou a ver; tocou e voltou a tocar; cheirou, voltou a cheirar; levou-o aos lábios e voltou a beijá-lo. Depois, depois abanou-o levemente, como se o fizesse por medo; de seguida, abanou-o mais: sacudiu-o com algum fervor, como se pretendesse que o rótico se pronunciasse.
 
Mas um rótico não fala, nem chia. Um rótico, qualquer rótico, é mudo. O rótico é o silêncio em ele mesmo.
 
Dentro daquela noite de Natal, os seus beneméritos iam-lhe seguindo os movimentos, a surpresa, o entusiasmo, a admiração, a contemplação, o espanto. Ele recebera, finalmente, um rótico; o rótico que todos os beneméritos em uníssono achavam indubitavelmente merecido.
 
 [...]
 
Mas ele não sabia o que era um rótico, para que servia, o que haveria de fazer com ele, nem porque lhe haviam dado aquela coisa a que todos -- menos ele --, convicta e entusiasticamente, chamavam rótico, e aquele, segundo lhe diziam e reiteravam, era um rótico fora de série, um rótico à medida de um homem como ele, um homem fora de série.
 
Mesmo assim, encostou o rótico ao peito, agradeceu e foi-se deitar.
 
Quando chegou ao quarto, o quarto estava frio. Mesmo sem entrar na cama, sentia-a na frialdade dos lençóis. Por causa do rótico, esquecera-se de vir animar a lareira do quarto, e agora o quarto era ali um ar gélido. Mas, tomado de uma ideia brilhante, riscou um fósforo e relançou o fogo.
 
De resto, todo e qualquer rótico arde muito bem.
 
E aquele, até porque era um rótico de marca, de singular etiqueta, também ardeu muito bem.
 
 
 
Fernando Hilário, Escrita de Mel e Água, Jornal de Notícias, Última Página, 26 de dezembro de 1997 (Manteve-se a ortografia original)
     
 
  

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A LÓGICA DAS MIGALHAS

Ficou aqui tempo bastante, creio eu, em exibição, sem mais nada que o perturbasse, o título das Histórias exemplarmente imperfeitas. Sei que houve um número simpático de leitores que aderiu ao meu apelo (“Leiam as minhas histórias”), sei que alguns gostaram, porque me deram conta disso, mas a maioria remeteu-se ao costumeiro grandessíssimo silêncio que estas coisas normalmente trazem. Gostava que as reações às HEI tivessem sido mais significativas, me trouxessem novas sobre o que fora a receção, produzissem mais ideias… Mas não me resta senão contentar-me com os efeitos reais produzidos, agradecer os que tiveram a amabilidade de ler, sobretudo, àqueles que, tendo lido, alguma coisa me disseram sobre o que leram e como leram. Todavia, as Histórias continuam à vossa disposição.

E, adiante, mudemos de assunto.

               
Também há uns tempos atrás, entre razão e ironia, deixei aqui expressa a ideia de que as dívidas, se são soberanas, não se pagam, ou, pelo menos, não se devem pagar ao jeito de quem transforma o país num miserável caloteiro, penhorando-se-lhe o corpo e a alma, para a voragem e gáudio dos onzeneiros.

“Não batam mais no ceguinho”, bem podia ser o título do filme português da atualidade, tendo como personagens protagonistas o País e o Governo. O guião é assaz simples, ainda que comovente: de um lado está o Governo e os seus simpatizantes, na obsessiva deriva, que uns identificam de bom aluno ou de tipo honrado e cumpridor, outros de teimosia de jumento, em querer pagar a dívida, e, do outro lado, o País inteiro a reclamar os danos que a empreitada, chamemos-lhe assim, provoca.   

Eu gostaria de acreditar nos desígnios humanos, patrióticos e históricos com que o Governo parece tomar a peito a boa governação do País e que esse, tal como apregoam, é o caminho. Gostaria, mas não posso, pois basta-me ver a miséria humana em que se encontram as inúmeras famílias portuguesas para perceber que esse não é seguramente o caminho… E essa não será, então, a política inteligente… e humana.

Nesta demanda, dir-se-ia esquizofrénica, do querer pagar a dívida a qualquer preço, os políticos no Governo têm descaracterizado o País pelo empobrecimento e delapidação das estruturas e das instituições sociais, culturais e científicas. Os próprios modelos conceptuais de ensino, saúde, justiça, prestação de serviços sociais e da organização e administração territorial têm sido alterados ao arbítrio do Governo e da maioria parlamentar que o sustenta, sem que, efetivamente, haja um indispensável contraditório que aconselhe ou desaconselhe as medidas tomadas. E isto pode parecer, mas não é um quadro de ficção: é a mais triste e condoída realidade (…)

As crises são, sempre, em último caso e para efeitos objetivos, da responsabilidade dos governantes e não dos governados. A estes últimos, e não a todos, caberá apenas, quando muito, uma responsabilidade moral.  

O sacrifício que se está a pedir aos portugueses, que os políticos transformaram em vítimas da crise que criaram, é tremendo: faz da sua existência um horrível e hediondo sofrimento, e deixará marcas indeléveis nas suas vidas.

Para além disso, parece-me um sacrifício a todos os títulos inglório. Para os atuais governantes, o país reduz-se à dimensão de um porquinho mealheiro que se engorda à custa da miséria das pessoas, sobretudo das mais carenciadas, ao mesmo tempo que a casa coletiva – Portugal, entenda-se – se arruína também.

Mas era bom que eu me enganasse.

Fernando Hilário

sábado, 31 de dezembro de 2011

Um poema para 2012

Temos as mãos e temos os olhos,
a pele e o sorriso, destaque-se o sorriso.
Mas temos as manhãs para celebrar, sobretudo
para celebrar. E as noites
para o voo azul das aves,
tão simples como isso.
Também temos, entre um tempo e outro,
desenhadas as tardes. E as estações, todas
as estações, que cada estação a outra estação
sucede espanto natural.
E temos os rios, os rios que são lágrimas
da alegria jorrada das fontes,
quaisquer que sejam. E os mares
e os oceanos, imensos campos de flores de sal
onde todas as coisas vêm sem cessar
ao seu encontro. E temos o vento, a palavra,
doce e dura, mãe dos idiomas. E a nós
temo-nos e aos outros todos os que habitam,
animais longe ou de nós próximos,
tão simples como isso.
Temos as montanhas e os vales, os prados,
as colinas, os cumes e sopés, vertentes e ladeiras,
astros; a aldeia e as cidades, a casa, o quarto,
a lareira, a mesa, a aliança, as alianças todas
de todas as colheitas, de todas as conquistas, da paz.
Tão simples como isso.
Da semente ao fruto, temos a viagem, da terra
à boca, da terra ao corpo, dos pais aos filhos,
da terra à terra, tão simples como isso.
Temos pontes que seguras são o caminho
da música, e estradas outras são rendas
de bilros, telas, tintas, a pintura, ou o que é
das mãos o trabalho das coisas em coisas transformadas.
Tão simples como isso. Temos tudo e o que não
temos do gesto depende, tão simples como isso.

HILÁRIO, Fernando – Tempo Instante. Lisboa: Instituto Piaget, 2033, p. 72. ISBN: 972-771-682-2

BOM ANO!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

ACABAR COM A DÍVIDA E SAIR DA CRISE

Brincando com as palavras e os significados delas, eu diria que uma dívida, quando é verdadeiramente soberana, não se paga. E não se paga, precisamente por ser tratar de uma dívida soberana.

Ou é soberana, ou não é!

Acontece, porém, que em Portugal e na Europa já nada é soberano, nem os países, nem as dívidas, nem os políticos, nem os sindicalistas, nem as pessoas...

Por cá, enquanto o Governo anda a esquadrinhar modos e maneiras para conseguirmos pagar a dívida soberana, a soberania do País vai indo por água abaixo.

Com ela, isto é, com a soberania a ir por água abaixo, vai o país e vão os portugueses – vão os anéis e os dedos…

É que quanto mais pagamos a dívida, maior é a crise; ao ponto da falência do país, das instituições, dos serviços e das pessoas, no presente, ser já uma realidade; ao ponto de não se vislumbrar como vai ser, no futuro, o futuro, mesmo que, entretanto, se consiga pagar a dívida do presente, no presente.

(…)

Na sua demanda obsessiva em desencantar os modos e as maneiras para pagarmos a dívida, o Governo, naquilo que considero um deslumbre só ao alcance de alguns (dos obviamente mais dotados), sugere a emigração. De imediato, a começar pelos professores e, depois, talvez por decreto exarado em brilhante Conselho de Ministros, extensiva a outros funcionários públicos. Por exemplo, do Ministério da Economia e das Finanças, para, quiçá, irem trabalhar para a Alemanha ou para a França… E que mobilidade seria! Que desempenho! Conseguem ver os nossos compatriotas ao balcão de uma repartição francesa ou alemã, a aviar cidadãos, em bicha, com papéis de burocracias locais na mão? Conseguem?

Não conseguem?!

(…)

É verdade que este Governo tem pensado muito (obsessivamente, desmesuradamente, diria até estupidamente…) sobre como pagar a dívida para sairmos da crise. Mas o Governo não pensa ou não sabe pensar como havemos de deixar de pagar a dívida para podermos sair da crise. Diria que esta dialética, mais do que um mero trocadilho, se traduz, em todo o caso, na frase popularucha “É muito areia para a minha camioneta”, frase que o Governo, obviamente, parafraseia e subscreve.

O Governo (não é inédito o que vou dizer) é um aluno obcecado em agradar aos mestres e mesmo àqueles que exercem apenas a função de prefeitos; bajulador, beija-mão, etc. Aluno que não levanta a cabeça, que a mantém baixa, que a mantém cabisbaixa, que mantém o olhar a olhar por baixo; daí que este aluno não é ave que aprenda ou que saiba voar sozinha, a voar alto, a voar soberanamente.

Por isso (também não é totalmente inédito o que vou dizer), eu proponho a emigração compulsiva, espécie de deportação, de degredo para este Governo. E sugiro, por exemplo, que o Ministro José Relvas vá recitar versos do Guerra Junqueiro e do Dantas para o Metro de Paris. Acho que ia sair-se bem. E sugiro, por exemplo, que o Ministro Vítor Gaspar, que se exprime muito claramente e muito pausadamente, vá ensinar a tabuada para uma escola básica do interior da Alemanha, de preferência da antiga Alemanha de Leste. E sugiro, por exemplo, que o Primeiro Ministro Passos Coelho vá para África, por hipótese meramente académica, para a Guiné-Bissau, para cumprir a sua deriva de ser ainda mais africano. (Podia sugerir mais, mas fico-me por aqui.)

Talvez assim pudéssemos acabar com a dívida e a crise soberanas.

Vilar do Monte, 30 de dezembro de 2011

sábado, 10 de dezembro de 2011

QUALQUER COISA E ALQUIMIA

A crónica que adiante se publica, data de uma sexta-feira do dia 5 de novembro do ano de 1993.

Hoje, os políticos europeus não sabem sair da crise em que se meteram, em que nos meteram e em que meteram a Europa. Esta incapacidade prova-se pelo choro da ministra italiana. Parece que a resposa é essa: chorar, e chorar sobre leite derramado.

Na altura da escrita da dita crónica. o escriva já suspeitava que a coisa pudesse correr mal. Por isso, fazia figas para que tudo corresse bem. Há um medo visível, há essa suspeição, essa premonição, que parece emegir do texto da crónica e ficar a pairar à superfície em tiradas de cómico, de sem sentido, de ironia (...)

Às vezes, mais valia, a quem escreve, nunca ter razão.
Deixo-vos com a crónica e com a verdade do tempo todo que vem agarrado a ela.

QUALQUER COISA E ALQUIMIA

No princípio era a CEE. Depois perdeu um E. E gora é a União. É dela que vamos falar.

A união faz a força. Uma europa unida nunca mais será vencida. O europeu, pela União, está unido? Está, sim senhor.

Com a União acabaram as desuniões. Por exemplo, todo o alemão unido nunca mais será convencido...

Na União há os fortes, os menos fortes e os outros. Os alemães são os fortes. Os portugueses são os outros. No meio ficam outros, que são muitos. Mas, unidos, são todos fortes -- basta acreditar. S. Tomé não podia ser da União. Dos céticos não reza a história... da União.

Há portugueses que são pela União. Outros nem por isso. Há ainda os que só são adeptos de clubes de futebol, como, por exemplo, do União da Madeira. Lucas Pires é o porta-estandarte dos unidos, mesmo que lhe decepem as mãos.

Há muitas uniões: sindical, desportiva, columbófila, cooperativa, pecuária, clubística, pirotécnica... e de países.

A união de países é aquela união onde há mais uniões; e porque cada país da União tem muitas uniões, e como são muitos os países a ter uniões, a União tem muitas uniões. Deste modo, a União candidata-se, desde já, ao Guinness Book. E parabéns à União.

Já houve a União Soviética (que deu no que deu); há os Estados Unidos (que, qualquer dia, vamos ver o que vai dar) e outras uniões. Agora há esta: a União, que, como ainda é muito bebé, é ainda uma união, ou seja, uma união que ainda não pensa.

Com a União, nada mais é como foi, nada mais será como dantes. Com a União tudo muda: a Europa unida pula e avança; e o resto do Mundo a julga constelação colorida nas mãos de uma bonança. E cantemos todos a União. Os que quiserem, é claro, que à coisa das uniões ninguém é obrigado

Na União, como em qualquer união, são todos por um, um por todos. E nesta união, o que os une a todos e a cada um é o ECU.

A Europa unida pelo ECU será mantida! -- é o "slogan" possível.

O ECU é de todos, mas os alemães mandam mais no ECU que todos os outros unidos do e pelo ECU.

Viva o ECU! Mas viva, enquanto for ECU unido.

O pior é se um dia o ECU dá o berro, desune-se e lá vai a União do ECU.

Depois, será outro o "slogan": a Europa unida sem o ECU está... desunida!

É verdade: o princípio de qualquer desunião é a união. [...]

Quando entrarmos na desunião, toda a gente vai atribuir a culpa à União. Eu sei que já estão a pensar na Alemanha. Lá no fundo, eles são uns "desunieiros" que só gostam de uniões à moda deles. Aliás, como nós, com o cozido.

Entretanto, todo o bom português que se preze deve aproveitar ao máximo os benefícios da União. Até nem era má ideia que, no ano 2000, as cabras também tivessem as suas auto-estradas, no mínimo, vias rápidas, e com aquelas casas de pasto, todas muito à europeia, para que pudessem abastecer-se com qualidade e nível de vida.

Pela parte que me toca, vou fazer os possíveis para que o presidente de freguesia da minha aldeia seja um grego. E não me perguntem porquê.

Outra contrapartida que eu quero da União é escrever coisas destas no "Figaro" ou no "Financial Times".

Creio que não é pedir muito.

Viva a União!

(Fernando Hilário, "Última Página", Jornal de Notícias, 5-11-1993)

sábado, 17 de setembro de 2011

O tempo é um relógio de cuco…



Numa sexta-feira de 17 de Novembro de 1995, publicava-se na última página do JN a crónica que se segue. Os factos do tempo são obviamente outros, mas os rostos que mostram parecem revelar que as coisas se fazem sempre da mesma farinha, o que já sabemos que é verdade, só apenas confirmamos. Mas a crónica tem outras confeções, que ao relê-la, confesso, não me desagradaram. Por isso, passo a partilhá-la.  



O lado submerso, o branco, outros sítios e cores

A criança guardava no bolso as bolas de gelo do uísque do pai. Guardava-as à saída do restaurante, no bolso do casaco azul comprido.

Disse o Governo que a arte de Foz Côa vai deixar de ser coisa submersa. As águas terão outra barragem, outras comportas. Por uma ou outra coisas, entretanto suspensas, como manda o estilo da política do PS, as gentes de lá vão esperando, divididas entre o passado e o futuro, desejando um novo presente. Em Castelo Melhor, onde fui ver as gravuras, convenci-me, [?] que os homens que as fizeram sabiam que em um tempo distante alguém as haveria de descobrir. Talvez só não pensassem que haveria de ser após tanto tempo. Mas alguém me disse que não, que, mais do que uma manifestação artística visando um destinatário, era mais um acto pudico e de manifesto recato, e até medo, pois reproduzir o real assim numa pedra seria blasfémia, coisas reservadas aos deuses, proibidas a mortais. Mas se assim fosse seria um acto mítico-religioso. Ou então seria, tão-só, a ancestral atitude do homem para possuir tudo quanto o rodeia. E reter no xisto um animal era em parte dominá-lo, exercer sobre ele um poder, controlá-lo, possuí-lo desde logo.

Os homens que querem fazer a paz morrem aos olhos dela. Não chegam a vê-la, porque a noite, como a morte, é coisa escura. Yitzhak Rabin ficará em gravura da arte rupestre deste Paleolítico, que em breve vai fazer 2000 anos após Cristo. De qualquer modo, que descanse no santuário dos exemplos vivos e que ganhem cores azul e verde como as bolas de gelo que acriança, à saída do restaurante, guardava no bolso do seu casaco.

Ontem, quarta-feira, 15 de Novembro de 1995, o telejornal de uma televisão noticiava: “Os médicos dizem que o pequeno Francisco tem 50% de possibilidades de morrer hoje”. Estranho, ou talvez não, não se ter dito “… 50% de possibilidades de viver hoje”. Hoje, no momento em que escrevo esta crónica, nada sei ainda do destino do pequeno Francisco. Continuo suspenso na informação dos 50% de possibilidades de vida ou de morte – uma equidistância que nada me diz, uma equidistância que apenas serve o gozo mediático das televisões. Suspense, estrangeirismo, o mesmo que expectativa (…) E não é a esperança a última coisa a morrer?!

As selecções nacionais de futebol ganharam à Irlanda e seguem em frente no “Europeu”. Do acontecimento vem à tona o nosso sentir português, emergem gravuras, talvez rupestres, talvez zoomórficas, do nosso patriotismo. De qualquer modo, os sonhos sempre se guardam nos bolsos de casacos azuis e, de preferência, compridos.

Na primeira página deste mesmo jornal, de quarta-feira, 15 de Novembro de 1995, leio: “Portugal intimidado a devolver fundos agrícolas mal utilizados”. É, obviamente, o emergir das irregularidades cometidas entre 1988-1993. E mais rochas hão-de aparecer à superfície, revelando, se não todo, grande parte extensão do santuário “laranja” do período do seu paleolítico superior.

Gomes da Silva, ministro da Agricultura do actual Governo socialista, não aceita a redução de cota da produção de tomate. E vai mais longe, ao dizer que a agricultura portuguesa não deve viver de subsídios. Quando maduros, os tomates são vermelhos – o seu sumo, diz-se, utiliza-se no sangue da ficção. Ficamos suspensos ou na expectativa de sabermos que filmes irão ser exibidos.

Andam a cair em desgraça as graças da IURD. Desta vez, em Rio Tinto.

Tal como a criança, eu acredito que as bolas de gelo não se tenham derretido. Acredito que […] chegou a casa, tirou-as do bolso do seu casaco azul e brincou com ela, berlindes transparentes e líquidos, iguais, rigorosamente iguais, ao seu pensar, como um rio claro e branco.

                                                              Fernando Hilário

  


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

NÉSCIOS E DÉSPOTAS (ou uma coisa e outra)

Nunca como hoje o homem dispôs de tantos e sofisticados meios e recursos científicos e tecnológicos que, devidamente utilizados, podem propiciar o bem-estar generalizado, extensivo ao todo da Humanidade.
Nunca como hoje, a consciência crítica do indivíduo foi tão capaz de interpretar as ideologias, a filosofia e os conceitos de vida e escolher os mais propícios para uma vivência social mais fraterna e justa, mais pautada pela igualdade de oportunidades e direitos.
Nunca como hoje, o homem dispôs de tanta capacidade para ajuizar o certo e o errado e civicamente intervir no rumo dos acontecimentos sociais, culturais e políticos.
Todavia, o tempo de hoje está marcado pelo contra-senso entre as possibilidades, susceptíveis de gerar o bem-estar e a felicidade, e a realidade da crise social em que caiu a Europa e o mundo em geral.
Vivemos então um tempo absurdo, caracterizado por aquilo que podia ser e pela realidade indesmentível daquilo que é.
Para além de absurdo, é o tempo do mundo patético da classe política, protagonistas néscios que criarem e engordaram a crise ao ponto de ela se tornar insustentável e que, agora, se tornam protagonistas déspotas (mas não menos néscios) a exigirem que sejamos nós, através da mais vergonhosa espoliação, a pagar a crise.  
                                                                                                                                             Fernando Hilário

domingo, 24 de julho de 2011

SEM PACHORRA PARA RETOCAR SEJA O QUE FOR

Há uns anos atrás, iniciei um Master em Criatividade e Inovação que a falta de tempo me obrigou a interromper. Numa pasta do meu computador, encontrei algumas reflexões e “respostas” relacionadas com os exercícios, o trabalho, pouco, que desenvolvi do referido master. São textos livres, entusiasmados, tremendamente pessoais, a precisarem, naturalmente, de ser retocados, e que nunca chegaram ao conhecimento do professor que mos solicitou. Publico parte deles, hoje, aqui. Publico-os tal qual os encontrei na pasta do computador. Sem retoques, portanto. Se fossem para entregar ao professor, talvez os retocasse. Assim, creio que não vale a pena. E, verdade seja dita, também não me acho com pachorra para retocar seja o que for… Pronto, vão assim, como quem sai diretamente da cama para a rua, sem sequer passar um pingo de água pela cara…



Sobre os valores e os processos essenciais da criatividade

            Os valores são o resultado de razões intrínsecas da minha personalidade criativa.             São eles que motivam a necessidade ou o desejo de criar. Constituem uma resposta,     porque procurada em desejo, aos impulsos interiores.



            Os fins e os sentidos dos valores são parte natural da minha maneira de viver.      Contribuem para manter a minha identidade e dar sentido à vida. A expressão dar      sentido à vida, só acontece no resultado da criação. Criar ganha um significado             imprescindível na superação da rotina dos afazeres básicos e de sentido utilitário.



            Valor é o resultado da análise que eu faço e que entendo adequado à minha relação        comigo e com os outros – relação que desejo harmoniosa, se possível de paz e amor.            Isto não obsta o conflito, o confronto com os outros, os pontos de vista contrários. A    chegada ao valor é também a consequência dessa aprendizagem, feita de correcções,      cedências e reajustamentos.



O que busco são os valores transcendentais, porque são os que mais exigem de mim e pelos quais pretendo ser criativo. Mas estes dependem dos outros, sobretudo, dos intelectuais, e também dos corporais. Os meus valores socioprofissionais assumem   também importância singular. Como professor, persigo a criatividade, entre outros     aspectos, visando um desempenho qualitativo da profissão – pretendo, sobretudo,             motivar a aprendizagem dos meus alunos e fazê-los ter consciência da sua            importância. Não se trata de ser um líder socioprofissional, mas sim de um agente do    processo que contribui qualitativamente para o sucesso dos outros, dos alunos, ou, por          concomitância da Escola.



Tenho alguma dificuldade em criar uma pirâmide (rígida) dos valores criativos     mais potentes e mais débeis; é-me difícil hierarquizá-los como passíveis de serem            arrumados em compartimentos estanques. Creio que há uma diferença entre o que      entendemos ser a importância de cada um dos valores, ou a importância que lhes           atribuímos, e o papel efectivo que têm quando “chamados a intervir”. Por outro lado, é             estritamente necessário questionar os nosso défices de valores, enquanto processo que    visa a sua superação. Esta reflexão, que deve ser constante e eivada de verdade,      revela-se imprescindível para o desenvolvimento de toda e qualquer actividade       desejada qualitativa – reflexão, também, que constitui o processo de nos conhecermos            e que nos leva(rá) ao crescimento permanente. Por outro lado, só quando nos      confrontamos com aquilo que somos e o que podemos ser (ou com aquilo que fazemos    com o que podemos vir a fazer…), estamos a ser criativos, e isto envolve, no tempo e           no modo, todos os valores, dos corporais aos transcendentais, passando pelos   socioprofissionais e intelectuais.



O processo psicossocial da imersão dinâmica dos valores é simultaneamente parcelar (ou faseado) e inter-relacional. (…)

     

Ao poeta Alberto Caeiro, que o seu criador, Fernando Pessoa, considerava mestre, bastava-lhe (dizia ele) as sensações. Poeta da natureza e do sensorial, a beleza para ele estava nas coisas que via, e vê-las tal qual as via, bastava-lhe. Rejeitava, portanto, o exercício do raciocínio ou da intelectualização. Para ele “pensar era estar doente dos olhos”; e ‘fazia-lhe mal pensar’. ‘Não há filosofia numa flor’, portanto, a flor deve ser objecto, primeiro e último, da sensação, defendia. 

     

Mas é claro que nesta atitude poética pode concluir-se haver o mais acabado exercício de intelectualização, e no, aparente, rejeitar da filosofia, o mais recorrente acto de filosofar. Na atitude poética do heterónimo, Alberto Caeiro, pode também concluir-se que se equacionam os seis processos psicossociais – metalinguagem, afinal e também, por onde se questionam e equacionam todos os processos psicossociais da imersão dinâmica dos valores. Do sensorial, donde parte, intelectualizando, imaginativa e criativamente, passando pela dimensão discursiva do texto (a poesia ou o texto que chega ao leitor), cuja recepção se faz pelo gesto da leitura “em apropriação motora e neurológica”, até ao referendo social que consagra ou rejeita tal poesia.

                                                                                     

***

(…) Dos meus pais herdei sobretudo o conceito de boa educação e regras de comportamento, marcados pelos valores da religião católica e da civilidade consensual ou vigente. Saber estar (à mesa, por exemplo); respeitar os mais velhos (ouvi-los e conceder-lhes a primazia); ter uma atitude corporal “educada” (como estar sentado ou de pé, ou o modo de andar…); falar em tom adequado às circunstâncias, com propósito e moderação; aceitar sem contestação o que os mais velhos me diziam (os pais, familiares, professores, padres…), seguir os seus conselhos; seguir os “bons exemplos”; evitar as más companhias; praticar o bem, rejeitar o mal.



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(…) Na infância e na juventude, creio que pouca coisa. […] Praticamente não tive heróis ou mitos. Houve alguma influência, todavia pouco significativa. De todos os que, apesar de tudo, mais me influenciaram foram os Beattles e alguns heróis da banda desenhada. Eu não pretendia ser como eles, por isso não os imitava naquilo que faziam. Mas serviam-me de exemplo para o que eu pretendia ser: distinto dos outros, por aquilo que viesse a fazer. Talvez por isso, desde criança gostasse de fazer coisas de realização pessoal (desenhos, motos e carros de madeira, etc.) que me mergulhavam num mundo de criação-realização.



***

(…) Os meus melhores amigos ou aqueles que eu mais admirava eram os que se distinguiam dos outros. Ou seja, aqueles que tinham capacidades e habilidades diferentes dos demais. Aqueles, por exemplo, que desenhavam bem, tocavam um instrumento musical… Aqueles que por uma razão ou outra se distinguiam positivamente.



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(…) A actividade humana visando a criação do novo, do original.

A actividade humana como acto de amor.

A emoção de criar.

O desejo espiritual de se chegar a “uma verdade de Beleza” que, sendo do “eu”, pode ou deve ser partilhada por todos.



A profissão de professor, no conceito de ensinar para levar a aprender, ou de que aprender é desejar aprender e aprender mais, com prazer e alegria. O professor: o motivador e o mediador do crescimento intelectual, físico e humano dos alunos. Também aquele que felicita o sucesso das aprendizagens ou desvaloriza (desdramatiza) o insucesso, voltando a estimular o aluno no sentido de o ajudar a superar as dificuldades.

     

A relação social: eu e os outros ou os outros e eu – somos diferentes, mas podemos         estabelecer relações harmoniosas, ainda que cada um possa continuar a ser o que    verdadeiramente é.

     

Superar o conflito, a adversidade, mantendo a individualidade e a            personalidade.



                                                                 ***

(…) Porque esta é a nossa grande casa, onde todos moramos, a todos compete cuidar dela, mantê-la limpa e asseada. Nenhum arquitecto, nenhuma tecnologia, nenhuma força de braços conseguiriam fazer outra igual ou parecida. É a casa cuja vida depende de nós e de quem a nossa vida e dos vindouros depende. Se a matarmos, morreremos com ela. Para além de tudo, isto é, para além da sua utilidade, é, sobretudo uma obra prima, de Beleza inalcançável.



***

(…) Apenas enquanto o que representam de útil, para resposta às necessidades básicas, para a realização rápida e eficaz de tarefas que nos facilitam a vida e nos libertam para a concretização de coisas mais interessantes, como, por exemplo, este Master.



(…) O estritamente necessário, pois ninguém se alimenta de ar e vento… Ninguém vai a Roma ver a Capela Sistina sem um cêntimo no bolso.



(…) Pintar, escrever, admirar a natureza, confrontar-me com algo que antes não conhecia e me surpreende e fascina. Saber que estou vivo. Levantar-me cedo para tirar partido da vida, vendo, cheirando, sentindo o que me rodeia. Perceber que estou vivo e que vou continuar a viver. Perceber a fidelidade nos olhos dos meus cães. Receber um telefonema ou a visita de um familiar ou amigo. Relembrar a relação sexual que tive com a minha mulher, sabendo que foi do agrado, do prazer de ambos. Tomar uma chávena de café com leite e logo depois fumar um cigarro (1) no logradouro da casa. Ler o vento, ler as nuvens, deixar que a chuva me escreva, o Sol me toque, progrida na sua investida e me invada, me faça corpo coberto de suor. Ver luzir no olhar dos meus alunos a centelha da coisa aprendida. Ter consciência que no atelier estão telas em branco, outras por acabar; a violação do espaço branco de uma tela, o início de um trabalho que desejo. Retomar o livro que ando a escrever. Iniciar numa folha A4 mais um poema, escrito com a tinta preta da Parker (não sei o porquê da tinta preta; que razões presidiram à escolha?...). Ter a consciência de que posso melhorar aquilo que faço, que sou capaz de melhorar. Congratular-me com o facto de ter crescido a planta que plantei. Ver a porta que pintei, o canteiro que fiz, a churrasqueira que fiz; a churrasqueira que junta a família e os amigos no convívio de uma refeição ao ar livre, no logradouro, que está livre pela manhã, mas onde volto a sentar os convivas, imaginando-os aí, na noite de convívio, vejo-os, ouço-os, ouço-me a mim mesmo, imagino a próxima vez, saboreio esses momentos, os que foram, os que imagino, os que hão-de ser – a imaginação é fabulosa (“Pelo sonho é que vamos”, diz Sebastião da Gama; “A verdadeira arte é a arte do sonho”, diz Pessoa.). Aquele que sonha cria mais, aproxima e expande, o próximo e o distante; derruba fronteiras, faz do finito infinito, torna o infinito mais infinito, torna-o infinito; passamos a estar dentro do infinito ou, se também quisermos, para lá dele. Não é verdade que haja um limite previsto, razoável, como é costume dizer-se. O limite é uma convenção, e eu não subscrevi essa convenção; respeito-a socialmente, mas transgrido-a quando quero, quando posso, quando o social sou eu, quando sou o social em mim, quando a minha liberdade é de facto e de direito a minha liberdade em mim, para mim e de mim. Criar é o exercício da liberdade livre, isto é, incondicional, incontestada, incomensurável, o que brota de mim do que fora uma sensação e uma intelectualização em mim – ou a representação de uma vontade ou de um desejo –, de dar um sentido a algo que tendo um sentido percepcionado ou mais ou menos convencionado é todavia e ainda minha a hipótese do sentido ou dos sentidos a dar; às vezes, se possível, a hipótese de abolir o sentido e chegar a outros (…)

                 Creio que me perco neste “torbollino”, e não marquei o início dos cinco    minutos, de nada me serve olhar o relógio, não sei se já se esgotaram os cinco           minutos. A noção empírica que tenho do tempo, diz-me que sim, diz-me que        esse tempo real, cronológico, se esgotou já, mas talvez a dimensão psicológica       me confunda, e talvez esteja nisto há mais de cinco minutos ou talvez só       tenham passado uns três minutos, quatro, talvez. Que importa?!



***

Do meu trabalho depende a minha condição económica e, portanto, material. Não vivo, como já referi, de ar e vento. Mas procuro orientar-me por valores afectivos, emocionais, intelectuais e sociais, marcados pela autenticidade, pela verdade e harmonia, cujo desempenho visa atingir o espiritual e o transcendente. Procuro, pois, ser autêntico, incutir a alegria e, de algum modo, passar a mensagem da Beleza – da Beleza que supera a dimensão estrita do convencional e do utilitário.



O objectivo do meu desempenho profissional é levar os alunos à compreensão, à consciência das ferramentas de que dispõem, o que elas são e o que podem eles próprios fazer com elas.                     



A construção dialéctica e criativa dos valores

Questão difícil. Questão delicada.

      (Pontos negativos / défices / contravalores e desvalores)

     

Uma proposta de valor socialmente aceite, supostamente serve a todos e a cada um.        Mas serve a cada um , porque este eu é dependente do todo. A primazia é dada ao todo      – o “eu” age em função do colectivo, dilui-se nele como elemento integrado, se se   preferir: subjugado, abafado, colectivizado.



Na proposta de valor socialmente aceite, o “eu” é uma peça ao serviço da máquina colectiva. Por isso, quando a peça (o “eu”) manifesta uma diferença (uma disfunção), o colectivo apressa-se a corrigir o grão de areia que compromete a sua engrenagem ou a suposta harmonia que fora instalada e deliberada. A peça que salta do sistema ou que deixou de encaixar-se nele, comprometendo o seu funcionamento, é objecto de reparo, censura, punição.



Na grande maioria dos casos, a proposta de valor socialmente aceite é regulada, controlada, pelas leis civis e judiciais, ou as leis de Estado, cuja função é manter sob vigilância a actuação-comportamento das peças face ao que fora instalado e deliberado. A pena máxima que esta “razão” impõe aos que violam as normas estabelecidas é a expulsão do sistema. Colocar no seu lugar um substituto que garanta a funcionalidade do colectivo, é a necessidade imediata, uma vez que sem a peça que deixou de cumprir a função que lhe fora conferida, o sistema não funciona.

     

Por norma, o “eu” que integra a proposta de valor socialmente aceite, não participa (não participou) na concepção dessa mesma proposta. Daí que o conhecimento que tem do seu papel seja escasso, deficiente. Faz parte do colectivo, mas não conhece de modo esclarecido, ou consciente, o seu papel, não lhe reconhece a importância. Por norma, desconhece também o papel dos outros, bem como o valor intrínseco da proposta. Quando muito, conhece os fins básicos, os mais supostamente evidentes, mas desconhece outros fins, outros valores que, eventualmente, a proposta encerra e cuja importância lhe escapa.

     

O desconhecimento total ou parcial por parte do “eu” (de cada “eu”) da proposta de valor socialmente aceite, acarreta sempre danos (aspectos negativos, défices e contravalores e desvalores).

     

É fundamental que a proposta social seja “construída” por todos os que a vão integrar. É fundamental que cada um a conheça nos seus múltiplos fins e aspectos. O indivíduo que se envolve num projecto social, de que não tem um conhecimento, adquirido através duma consciência crítica, não só desempenha mal o seu papel como pode pôr em causa o desempenho dos outros e o, eventual, interesse comunitário da proposta. É, também, imprescindível repensar, reavaliar, a proposta e o seu desempenho, em tempo continuado da sua actuação, no sentido de lhe reintroduzir os ajustamentos considerados necessários ao êxito da mesma, despistando ou anulando os efeitos considerados negativos.



Porque faço esta proposta?

Porque estou consciente da sua importância e das vantagens individuais e sociais que ela alcança.

     

Que vantagens?

A promoção de valores e a concretização de objectivos que servem ao interesse individual e colectivo

     

Que desvantagens?   

Nenhuma. Pois nenhuma foi vislumbrada. Ou esta e aquela que, equacionadas, ponderadas, discutidas e analisadas todas as hipóteses, não foi possível contornar ou eliminar.

     

As razões que apresento são as da minha consciência, porque elas são o resultado de um trabalho esforçado e verdadeiro de pesquisa, interpretação e análise. Tudo foi objecto de estudo, de análise e ponderação. Se algo não foi levado em linha de conta, foi por desconhecimento meu. Mas, se detectado, comprometo-me de imediato a reavaliar a proposta e a proceder às alterações consideradas necessárias.



Não vislumbro um contravalor à minha proposta.

Se encontrar essa pessoa […], farei um vivo debate de defesa da minha proposta.





Os Valores de toda a vida

Não sei se ao certo sei quais são esses valores. Respondo-te com a pergunta: esses valores serão os que tu aí equacionas. Eles serão também os que enuncias […] atrás. Ou seja, os valores naturais, os valores ecológicos, os valores populares, os da sabedoria universal e, aqui, os contravalores “rechaçados”. Mas tu sabes tão bem como eu que muitos desses valores têm sido maltratados, desrespeitados, subalternizados. E eu não sei (tu certamente também não o saberás) para onde vamos e onde chegaremos sem esses valores. E eu não sei se os valores emergentes (pelo menos alguns) são tão “bons” quanto outros, aqueles com que nascemos e crescemos. Duma coisa tenho a certeza: com o século XXI temos acentuado a destruição dos valores ecológicos, ainda que hoje haja – e ainda bem que há – uma consciência dos danos.

     

Mas bastará haver essa consciência? Será ela suficiente para travar os interesses instalados que grande dano causam (talvez irreversível) aos valores ecológicos? Deixo-te a pergunta, não para que me respondas, apenas porque ela traduz os meus receios e me exercita a consciência.



(…) Sim, é como tu próprio dizes na tua pergunta, “para hacer que el ser humano se desarrolle al máximo de sus posibilidades en su proprio beneficio y para el bien del resto de las personas”. Isso me parece certo e imprescindível que assim seja. Mas não basta saber que estes valores devem estar associados aos direitos humanos e que eles são fundamentais para ultrapassar as dificuldades do mundo. Não basta, ao que parece, ter a consciência disso!... Dir-me-ás que são ainda poucos os que têm, de facto, essa consciência. E quando formos mais, muitos mais, seremos capazes de anular os que destroem esses valores. Concordo. Mas então teremos que ser mais criativos na criação da mensagem, e criativos, muito criativos, na sua propagação, no seu alcance. Creio que aqui (bem como noutras coisas) a criatividade é essencial. É esta a criatividade como valor de valores de que Ricardo Marín fala?   





Exercício de reflexão

Os valores estão em nós, mas podemos sempre procurar (buscar) outros e confrontá-los.



A afirmação precedente é, simultaneamente, uma constatação e uma intenção. Só exercitando a intenção poderemos melhorar o leque de valores, e (re)distribui-los por uma escala (ou pirâmide que, em todo caso, nunca será rígida) que melhor estabeleça a importância ou o lugar devido de cada um dos valores e da relação que se estabelece entre eles.



A adequação dos valores, de acordo com aquilo que somos e/ou pretendemos ser, estrutura-nos enquanto indivíduos humanos. Naturalmente que os valores aprendem-se e reaprendem-se. Importa sobretudo saber reaprender os valores, enquanto processo dinâmico de uma consciência actualizada que sobre eles devemos ter – processo que permite a escolha e o concurso deste ou daquele valor em detrimento de outro que, por uma razão considerada positiva, achamos mais correcta. Este conhecimento ou consciência permite também destrinçar o que pode ser défice de valores ou de contravalores. Ao mesmo tempo, dissipa ou pode ajudar a dissipar os fenómenos de repetição e de imitação, visando a criatividade. Entende-se esta como o desejo e acção do indivíduo a superar-se a ele próprio, na busca do transcendente, da harmonia, do amor, da paz e da Beleza.

     

Para “subir a la cumbre de la montaña de la criatividade como innovación valiosa”, como tu dizes, é preciso caminhar com passos seguros, mas não presunçosos, consequência da escolha que fazes em ti mesmo, avaliados os teus valores, que o caminho é teu, mas a cada pedaço de caminho andado impõe-se a reflexão (“de vez em quando, descansar”), para que consigas chegar onde tu te possas ver e reconhecer. Só assim poderás ver no “cumbre” da montanha tu próprio, que o que então verás de valioso é o teu próprio ser total. Assim, a obra que realizas, em nenhuma circunstância poderá ser outra que não a tua própria obra, e a Obra és Tu mesmo.     



(…) Uma das qualidades deste Master é levar a pensar naquilo que antes não tínhamos pensado. É o caso deste exercício. Enquanto indivíduo criador, não me tinha ocorrido equacionar os valores que estão associados à minha criatividade. Mas certamente isso acontece, algo inconscientemente, algures no tempo e no espaço mental em que decorre a criação, e, no processo desta, esses valores são imperativos evidentes de rejeição ou de aceitação.

     

Eu creio que o acto de criar é sobretudo um acto de escolha e de decisão. No que me diz respeito, essa escolha visa chegar àquilo que me parece inovador. Criar e inovar são, em certo sentido, sinónimos. A minha intenção é ser inovador e original. O que me agrada ver num poema ou num quadro é o que há neles de diferente, de inédito. No confronto com o trabalho realizado, avaliando-o, é isso que procuro. Encontrando o que antes ainda não tinha conseguido realizar, não dou o tempo e o empenho por mal empregues. Todavia, não se trata de obter uma satisfação total: é sobretudo um tempo de agrado relativo que me permite concluir que “não está mal” e que “poderá ser melhor”.



Na minha qualidade de professor, apesar das limitações impostas pelo sistema à profissão, sempre procurei incutir nos alunos a ideia de serem pessoais e criativos. Para tal, sirvo-me de exemplos pioneiros e inovadores da história dos Grandes Homens que, ousando o diferente, permitiram as descobertas que fizeram pular o mundo.



Os que não ousam ser diferentes e inovadores são meros papagaios: animais curiosos (às vezes, maçadores), mas que se limitam a imitar. A imitação e a cópia representam uma estagnação: não se acrescenta nada, não se melhora, não se progride.

     

O mundo está repleto de papagaios. Aliás, o sistema político-mental-ideológico que rege o mundo é o de fazer papagaios que, basicamente, são papagaios de papagaios. Todavia, o sistema espera que de entre a multidão de papagaios surja, às vezes, um que não o seja e que seja, portanto, um inovador, que, naturalmente, terá a sua imensa multidão de seguidores, isto é, de novos papagaios.

     

Creio que o papagaio (estou a falar da ave em si mesma, o “louro”, como se diz por cá) não se acha nunca triste nem insatisfeito por levar a vida inteira a repetir o que consegue aprender, imitando. Suponho que (se isso for possível) deverá inclusivamente achar-se satisfeito, vaidoso, realizado, por conseguir imitar a voz humana, façanha que não está ao alcance de todos os bichos. Mas essa capacidade que ao papagaio é, sob alguns aspectos, notável, para o ser humano não passará de uma capacidade básica. Reger com ela a vida é reduzirmo-nos à dimensão do papagaio, ele mesmo, o louro, o que é pouco e pobre, o que nos atira para a monotonia da repetição, para o caminho que fazemos exactamente igual ao que os outros fazem, isento, portanto, de descoberta, de realização pessoal, de originalidade. E será pouco, será pobre, se nisso encontrarmos alguma alegria, alguma satisfação, alguma conquista, já que, em boa verdade, só conquistamos o que os outros já conquistaram, e nada descobrimos que outros não tenham já descoberto. Por outro lado, assim não somos nós: somos todos os outros, pois que apenas nos limitamos a seguir o caminho indicado e já trilhado. Recordo José Régio, no “Cântico Negro”:



                             “Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces

                             Estendendo-me os braços, e seguros

                             De que seria bom que eu os ouvisse

                             Quando me dizem: “vem por aqui!”

                             Eu olho-os com olhos lassos,

                             (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

                             E cruzo os braços,

                             E nunca vou por ali…



                             A minha glória é esta:

                             Criar desumanidade!

                             Não acompanhar ninguém.

                               Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

                             Com que rasguei o ventre à minha mãe.



                             Não, não vou por aí! Só vou por onde

                             Me levam meus próprios passos…



                             Se ao que busco saber nenhum de vós responde

                             Por que me repetis:”vem por aqui”?



                             Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

                             Redemoinhar aos ventos,

                             Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

                             A ir por aí…



                             Se vim ao mundo, foi

                             Só para desflorar florestas virgens,

                             E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

                             O mais que faço não vale nada.



                             Como, pois sereis vós

                             Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

                             Para eu derrubar os meus obstáculos?...

                             Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

                             E vós amais o que é fácil!

                             Eu amo o Longe e a Miragem,

                             Amo os abismos, as torrentes, os desertos…



                             Ide! Tendes estradas,

                             Tendes jardins, tendes canteiros,

                             Tendes pátria, tendes tectos,

                             E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…

                             Eu tenho a minha Loucura!

                             Levanto-a como um facho, a arder na noite escura,

                             E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…



                             Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

                             Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

                             Mas eu, que nunca principio nem acabo,

                             Nasci do amor que há entre deus e o Diabo.



                             Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

                             Ninguém me peça definições!

                             Ninguém me diga: “vem por aqui”!

                             A minha vida é um vendaval que se soltou.

                             É uma onda que se levantou.

                             É um átomo a mais que se animou…

                             Não sei por onde vou,

                             Não sei para onde vou

                             – Sei que não vou por aí!    



Outro poeta, António Gedeão, outro poema: “Eles não sabem nem sonham / Que quando um homem sonha / O mundo pula e avança/ Como bola colorida/ Entre as mãos de uma criança (…)”

     

A ideia é a ideia do sonho… Melhor dizendo: dum sonho em que se sonhe sonhar o que outros ainda não sonharam. Ou, como diz o poeta, sonhar como a criança, pois para ela o sonho ainda não se veste nem tem a forma da coisa a copiar, a imitar, a papaguear.

     

Então que frase ou slogan criar para convencer as pessoas da necessidade de serem criativas? Pois não sei. Não sei como posso ser convincente, quando o sonho, ele mesmo, já foi à escola para tirar o curso e ser homem de sucesso, como é o doutor, o engenheiro do 3.º andar. Talvez tenhamos que ser suficientemente criativos ao ponto de sabermos despir os sonhos (que os sonhos já se vestem todos – ou quase todos – em pronto-a-vestir), e depois sim (re)aprender a sonhar.

     

Mas que frase, que slogan há-de ser?! Pois ainda não sei, ainda nada me ocorre.

É-me claro, perfeitamente claro o valor da criatividade. A importância que ela tem para o reencontro do homem com ele mesmo – esse homem que ousou a poesia para se achar mais próximo dos deuses e do entendimento das coisas – a importância que tem (a criatividade) para que o homem deixe de ser colono dele mesmo e seja o indivíduo que busca ele próprio a luz do entendimento e da descoberta, incluindo, desde logo, a sua própria descoberta.

     

Mas que frase? Que slogan?

Pois não sei. Nem tu, nem ninguém, creio, saberá criar esse enunciado que seja suficientemente convincente da importância da criatividade.

     

Algumas vezes já deixei por responder a questões que colocas nos exercícios do Master. Esta é mais uma, a não ser que a frase que solicitas seja apenas para provocar uma mera discussão (que, em todo o caso, será importante…) sobre a importância reiterada da criatividade. Nesse caso, ela poderá ser esta: Morte aos papagaios! Liberdade para o Sonho!





      Fernando Hilário



(1) Deixei de fumar há um ano. Tenho vindo a apurar o olfato, o apetite tornou-se voraz e a barriga proeminente.